segunda-feira, 30 de abril de 2018

A brasa... isolada

Um membro de um determinado grupo no qual participava regularmente, sem nenhum aviso ou causa aparente afastou-se e desapareceu.
Após algumas semanas, o responsável do grupo preocupado com sua ausência decidiu visitá-lo em sua casa.  Era uma noite muito fria. O responsável encontrou o colega em sua casa sozinho, sentado diante de uma quentinha e brilhante lareira.
Já supondo a razão para a visita, o homem deu-lhe boas-vindas, conduziu-lhe a uma grande cadeira perto da lareira e ficou quieto esperando a bronca. O responsável se fez confortável, mas não disse nada. No silêncio sério, contemplou a dança das chamas em torno da lenha ardente.
Após alguns minutos, o responsável examinou as brasas, cuidadosamente apanhou uma brasa ardente e deixou-a de lado. Então voltou a sentar-se e permaneceu silencioso e imóvel. O anfitrião prestou atenção em tudo, fascinado e quieto.
Então diminuiu a chama da solitária brasa, houve um brilho momentâneo e seu fogo apagou-se de vez.  Logo estava frio e morto.
Nenhuma palavra tinha sido dita desde o cumprimento inicial. O responsável antes de se preparar para sair, recolheu a brasa fria e inoperante e colocou-a de volta no meio do fogo. Imediatamente começou a incandescer uma vez mais com a luz e o calor dos carvões ardentes em torno dela. Quando o responsável alcançou a porta para partir, seu anfitrião disse:
“Obrigado tanto por sua visita quanto pelo sermão. Eu estarei voltando ao grupo amanhã mesmo”.

Aos membros de um grupo:
Vale sempre lembrar-lhes que eles fazem parte da “chama” do grupo e que longe dela perdem todo seu brilho e nos tornamos mais vulneráveis aos ataques do inimigo. 

Aos responsáveis:
Vale a pena sempre lembrar- lhes que eles também são responsáveis de manter acesa a chama de cada um e de promover a união entre todos eles, para que o fogo seja sempre realmente forte, eficaz e duradouro.

Exemplo de perseverança, a força do grupo e a vida em comunidade...

"Sem abandonarmos a nossa assembleia - como é costume de alguns - mas animando-nos, tanto mais quanto mais próximo vedes o Dia." (Hb 10, 25)

fonte e imagem: internet

O peso das comodidades

«A maior parte dos luxos e muitas das chamadas comodidades não só não são indispensáveis, como são, pelo contrário, verdadeiros obstáculos ao progresso da humanidade.»

Conta-se que Sócrates ia para o meio das mercadorias e produtos oferecidos pelo mercado de Atenas para exclamar, satisfeito: «De quantas coisas não tenho absolutamente necessidade».

A sociedade moderna levou-nos, com o seu consumismo, a um nível altíssimo de necessidades não necessárias. Muitas “comodidades” são absolutamente exorbitantes, apenas úteis para enriquecer quem as produz e se destaca na habilidade de convencer-nos que sem elas não podemos viver decorosamente.

É este também o pensamento expresso pelo escritor americano Henry David Thoreau (1817-1862), na sua obra “Walden ou a vida nos bosques” [editado em Portugal pela Antígona], espécie de diário da sua vida durante dois anos sozinho numa cabana junto ao lago de Walden, no Massachusetts.

É verdade que pode também haver uma retórica da vida na natureza, primitiva e solitária, e talvez o próprio Thoreau seja algo indulgente em relação a ela.

Todavia, a lógica frenética dos consumos, a publicidade comercial marteladora, a preguiça e o prazer sem esforço encheram-nos de produtos que impelem para fora de nós mesmos a nossa, o compromisso, a sobriedade, a generosidade.

O estilo clássico da Quaresma era o da separação, da renúncia, da abstinência, do jejum. Agora, no máximo, conhece-se a dieta mas ignora-se o domínio de si, o essencial, a purificação do espírito da posse e da acumulação.

Um autêntico progresso moral ocorre quando nos libertamos das escórias, dos adornos, das comodidades inúteis. O apego às coisas torna-nos não só pesados fisicamente, mas pesados na mente e no coração, extinguindo a leveza e a liberdade da alma.

P. (Card.) Gianfranco Ravasi 
fonte: http://www.snpcultura.org/o_peso_das_comodidades.html
Imagem: Internet

O sapato e a formiga

«Uma formiga debaixo do sapato de um homem não tem a mais pálida ideia de como é um rosto humano. E nós, diante do rosto de um homem, ignoramos da mesma forma como está o seu coração.

Por puro acaso ou por um subtil sabor perverso, por vezes o nosso sapato esmaga a formiga que atravessa a estrada. Entre ela e a enormidade de nossa figura, melhor, entre a sua pequena cabeça e o nosso rosto há uma distância quase abismal, uma impossibilidade de comunicação.»

Parte desta imagem Milena Jesenská (1896-1944), a mulher de Praga que ficou célebre pelo seu amor com Franz Kafka, a que permanecerá ligada entre 1920 e 1922, pontuando o escritor esse período com as conhecidas "Cartas a Milena".

A imagem é tomada como comparação para indicar o imenso segredo do coração humano: de uma pessoa vê-se o rosto, dele consegue-se intuir algo quando enrubesce, quando te olha, sorri ou chora, mas o íntimo mais profundo permanece oculto.

Somente com a comunicação livre e sincera de si é que esse abismo é preenchido, o que raramente acontece, às vezes nem sequer no casamento.

É verdade que há uma intimidade que pode permanecer sempre e apenas "pessoal", e o outro deve respeitá-la. O poeta libanês K. Gibran sugeria aos noivos: «Cantai, dançai juntos e sede alegres, mas deixai que cada um esteja só: mesmo as cordas de um alaúde estão sós embora frimam a mesma música. Deem os vossos corações mas não para os possuir, porque só a mão de Deus pode contê-los».

Há, portanto, uma solidão necessária que deve ser protegida, mas também é importante que se percorra o caminho de comunhão, no qual se possa ser «um só coração e uma só alma» (Atos 4, 32).

P. (Card.) Gianfranco Ravasi 
fonte: http://www.snpcultura.org/o_sapato_e_a_formiga.html
imagem: internet