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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

A oração é a saúde da alma

"A oração é a saúde da alma e do corpo

Não me considero nenhum mestre de oração, pois não existem escolas ou mestrados em oração. Ninguém recebe o diploma na arte de dialogar e amar a Deus sobre todas as coisas; é um caminho que se faz ao longo de toda a vida, sempre com o perigo de voltar atrás, se não vigiamos constantemente sobre nós mesmos.

É bom desconfiar dos métodos fáceis e baratos em todas as áreas: “Aprenda inglês em 15 dias e sem esforço”; “Seja artista numa semana”; “Emagreça 10 kg em um mês comendo de tudo e sem exercícios físicos”; “Toque violão em três dias”… são todos anúncios “enganosos” que deveriam ser proibidos porque não correspondem à realidade. Tudo o que é belo, duradouro e transformador exige muito tempo e, principalmente, a fidelidade no exercício para não esmorecer no caminho.

A oração é a atividade mais fácil e mais difícil ao mesmo tempo. Trata-se de consciencializar-se de sua importância e levar a sério o exercício de rezar, não aleatoriamente, de vez em quando, quando nos sentimos bem, ou temos necessidade, mas sempre. É o mesmo Jesus quem nos recorda estes princípios básicos: “Rezai sem cessar para não caírdes em tentação” (Mt 26, 41), ou o apóstolo Paulo que repete como um eco as mesmas palavras do Mestre: “Orai sem cessar” (1Ts 5, 17).

Quem descobre os benefícios da oração vai se tornar orante e vai ser fiel em cada momento da vida. Devemos evitar, a todo custo, sermos “rezadores”, preocupados com a quantidade de “orações” que todos os dias vêm determinadas e em momentos da vida as pronunciamos, e fazermos o esforço para sermos “orantes”, isto é, pessoas que fazem da oração sua própria identidade, um estilo de vida; que encontram nesse exercício quotidiano, o caminho do próprio bem-estar espiritual-físico, o próprio equilíbrio emocional. É a forma de viver uma vida “estável” emocionalmente em todos as situações que aconteçam, porque criam dentro de si o hábito da fé e a certeza de que Deus-amor não pode faltar nas Suas promessas. As convicções não se assumem porque os outros falam da beleza e da necessidade de uma determinada coisa, mas pela experiência própria; são o alicerce que cada um decide ter e sobre o qual construir a própria vida. Quem muda continuamente de alicerce acaba não construindo a casa, e corre o risco de ver a sua casa ruir.

“Não são aqueles que dizem Senhor, Senhor, que entrarão no Reino dos céus, mas aquele que escuta e pratica as minhas palavras… Quem escuta e pratica a minha palavra é como quem constrói a sua casa sobre a rocha…” (Mt 7). O fundamento e o cume de todo diálogo com o Pai é Jesus. É a Ele que devemos buscar como único Mestre, que teve a ousadia de ensinar para nós como devemos rezar: “Quando rezardes dizei: ‘Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixei cair em tentação mas livrai-nos do mal’.” (Lc 11, 2-4).

Contemplar Jesus! Será Ele o ORANTE, será o nosso caminho que percorreremos ao longo deste ano: Jesus que reza, ensina a rezar e intercede por nós. Na pessoa do Verbo encarnado se resume todo o drama da oração humana desde todos os tempos. Ele é o único que podemos e devemos chamar de “Mestre de oração”.

A geografia da oração

Quando achava orgulhosamente que eu poderia ser “teólogo”, colocava-me uma pergunta angustiante e ao mesmo tempo soberba: “Para que serve ficar diante de Deus em silêncio, suplicando pelos problemas dos outros e meus, quando ao meu lado o mundo pega fogo, os homens passam fome, a injustiça vai aumentando e o mal avançando? Para que desperdiçar tempo precioso em “cânticos, orações, adorações” se é necessário agir, fazer algo para melhorar um pouco o mundo em que vivemos?” Estas perguntas e outras semelhantes sempre estiveram presentes e sempre existirão. Delas ninguém escapa. Mais cedo ou mais tarde, na confrontação conosco mesmos, assalta-nos a tentação da inutilidade da oração e queremos justificar tudo com o FAZER, embora defendamos a importância do SER.

A incoerência está presente na natureza do ser humano, faz parte da fragilidade e da carga pesada de “pecaminosidade” que carregamos dentro de nós; é uma realidade que nos acompanha ao longo de toda a existência: vemos com clareza o bem que devemos fazer e acabamos fazendo o mal que não gostaríamos de fazer. Diante da constatação de minha incoerência, há muitos anos, decidi fazer uma pesquisa que, se não me convenceu, ajudou-me bastante a clarear as ideias sobre o “mistério da oração”. Será que a oração é somente uma ideia fixa dos católicos, dos místicos, dos fanáticos, ou uma necessidade do ser humano? Dizem que, quando uma coisa se encontra presente em todos os seres humanos, é uma atividade humana indispensável e faz parte de sua estrutura fundamental. Assim, comer, dormir, pensar, amar, criar, viajar, conhecer, dialogar, rir, chorar…são atividades que encontramos presentes em todos os povos. Um elemento indispensável na vida humana, como tal é a Religião. Em nenhum povo – e você mesmo pode fazer esta pesquisa através de enciclopédias e dicionários – está ausente o fator religioso nos seus vários matizes.

É uma descoberta fascinante constatar que todos os povos buscam um relacionamento com o Senhor e fazem de Deus o centro da própria vida. Mesmo por caminhos nem sempre retos Deus se revela. Buscá-lo já quer dizer tê-lo encontrado. A oração nasce da consciência de nossa pobreza. À medida que nos sentimos pobres, necessitados, vamos ao encontro da riqueza e da nascente da água viva que é o amor. O “Magnificat”, o canto de Maria, nasce de sua humildade e pobreza: “Deus olhou a humildade de sua serva” (Lc 1, 43). Os místicos não têm medo de ser ousados quando falam de Deus como fonte de riqueza e de amor misericordioso. Agostinho, na sua ansiosa busca de Deus, diz: “nós somos os mendigos diante de Deus”. Estamos sempre de mãos estendidas, esperando que Ele venha em nosso socorro. Todo pobre, seja qual for a sua pobreza, tem plena consciência de que não tem direito a nada, que tudo o que recebe é dádiva, misericórdia. Assim é o doente que estende a mão para o médico; o mendigo que, à beira da estrada, pede um pedaço de pão; ou como o aluno que, na sua pobreza, pede que lhe seja comunicada a sabedoria… É preciso reconhecer que nos falta algo para sermos felizes e buscar tudo isso com profunda humildade; ninguém pode se aproximar e estar diante de Deus buscando ter “direitos” a fazer valer. Deus rejeita os soberbos e os orgulhosos; os ricos vão embora de mãos vazias e os famintos são saciados.

Sem dúvida, uma das santas mais ousadas nesta visão da oração como pobreza-riqueza será Santa Teresinha do Menino Jesus que, nas suas loucuras de amor, não tem medo de dizer: “Deus é o grande mendigo, Ele mendiga o nosso amor”. A fome que Deus tem de nós é infinita, por isso Ele tem sede que nós tenhamos sede dele. É Ele quem se abaixa no mistério da encarnação, que “deixando a tranquilidade de estar no seio do Pai” através de um completo esvaziamento, uma Kénosis, Ele se reveste de nossa humanidade e caminha entre nós. Jamais, em nenhuma religião, nenhum Deus se fez “carne” para estar com a humanidade dia e noite e fixar sua morada entre nós. A oração se entende a partir da perspectiva: a) da riqueza de Deus e da pobreza humana; b) da “pobreza” de Deus e da riqueza humana. Uma pobreza divina que é extrema riqueza vem a nós, dando-se sem se esgotar e doando-se sem diminuir.

O orante é aquele que tem livre acesso ao coração de Deus, entra e sai quando quer, e nunca entra sozinho, como também nunca sai sozinho, mas sempre revestido da mesma “formosura de Deus”. A geografia da oração é feita de “desertos“, onde experimentamos a completa “nudez e noite escura”, onde se caminha pela força da fé, apoiando-se no bastão da cruz. A oração é fixar o olhar no infinito e obscuro “tu és verdadeiramente um Deus escondido”, como diz o profeta Isaías. O deserto como espaço teológico da experiência oracional, não importa qual seja o nome do deserto: dor, sofrimento, incompreensões, cruzes, solidão, abandono, morte, doença. Deserto é o lugar onde não cabe mais que duas pessoas: você e Deus. Todo o resto é supérfluo e deve ser eliminado pelo processo de uma constante conversão.

Mas Deus é o sábio pedagogo que sabe dosar os sofrimentos e nos concede, portanto, momentos de oração que são fontes borbulhantes, lautos manjares e visões maravilhosas de uma alegria suave e incomunicável: paz, alegria, toques delicados da graça, sucessos, doçura e ternura do amor.

Para penetrarmos no drama da oração precisamos entrar na espessura da cruz, no cimo solitário do Calvário, onde o Senhor Jesus reza: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46); ou entrar na alegria do agradecimento, do encontro amoroso com o Pai: “Te louvo e agradeço, ó Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11, 25).

A geografia da oração é feita de desertos e mananciais, de montanhas ermas e solitárias e florestas verdejantes, de noite escura e de luzes… É o entrelaçar-se da vida, do amor e da cruz. Nada pode ser eliminado no nosso encontro com o Senhor.

Iniciar o caminho

A oração não é meta, é simplesmente caminho para se chegar a Deus. Não se pode transformar os meios em fim. Muitas vezes as pessoas confundem a oração com “Deus”. Mas a oração se faz necessária para poder dialogar com Ele e conhecê-lo melhor. É pelo caminho da oração que se vai chegando à nascente. Santa Teresa de Ávila, mestra de oração, desde sua infância, em formas diferentes, coloca um ideal diante de si: “Quero ver Deus”. E será esta profunda convicção e desejo que vão orientar toda a sua vida. Tudo renuncia, de tudo se despoja, tudo abandona. Nada que possa ser obstáculo ao seu encontro com Deus terá direito de estar presente em sua vida. Torna-se assim a mulher do essencial e do absoluto, que sabe, numa de suas poesias, sintetizar toda a sua teologia experiencial do desejo e da busca:

“Nada te perturbe.
Nada te espante.
Tudo passa.
Deus não muda.
Quem a Deus tem nada lhe falta.
Só Deus basta.”


O que muitas vezes nos afasta da oração na vida é não fazer de Deus o centro de nossa existência e buscar só a Ele e nada mais. Iniciar o caminho da oração é ter uma “determinada determinação” que não pode ser colocada em discussão por nada. Não importam os gostos, as consolações. “A minha única consolação é não ter consolação”, escreve Santa Teresinha do Menino Jesus. A oração não pode faltar na nossa vida se queremos chegar a uma harmonia interior. Temos à nossa disposição este caminho: o caminho do encontro e do amor pleno de um Deus que vem ao nosso encontro. Vamos iniciar o caminho!

Tente responder, com sinceridade e no íntimo do sacrário de sua consciência, a estas três perguntas:

1 – Deus – Trindade de amor: Pai, Filho e Espírito Santo – é o centro de minha vida, tudo dele procede e tudo a Ele volta?

2 – Que lugar ocupa a oração em minha vida; quanto tempo dedico por dia a este encontro amoroso com Deus?

3 – Por que rezo? Estou convencido de que a oração é a saúde de minha vida espiritual, humana e psicológica?

Fixemos o nosso olhar em Cristo Jesus, amigo e companheiro! N'Ele encontraremos todas as delícias de nossa vida. Ele é a fonte e o caminho de nossa oração.

Frei Patrício Sciadini"

Fonte: https://www.comshalom.org/a-oracao-e-a-saude-da-alma-e-do-corpo-2/
Imagem: https://pixabay.com

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A palavra Diligência

Encontrei este artigo numa revista que tinha guardado e entendi partilhá-la convosco...

A «Diligência» é uma palavra pouco usada e quando é usada, restringe-se, normalmente, aos meios e ambientes judiciais, todavia encerra em si uma grande riqueza, quer de conteúdo, quer de valor.

A diligência é uma das sete virtudes do Cristianismo, a virtude humana de seguir e atingir um objetivo na vida de forma cuidadosa e atenta, esforçando-se na aplicação dos meios para fazer acontecer o que urge ser feito e da melhor forma possível.
A palavra «diligência» vem do verbo latino diligere, que significa «amar». E diligens (diligente) significa «aquele que ama».

A pessoa diligente age com amor e prontidão (diferente de pressa), procurando o bem e predispondo-se a atingi-lo. Diligência é a capacidade de combinar persistência criativa e esforço inteligente com competência e eficácia, para alcançar um resultado honesto dentro do mais alto nível de excelência e eficácia. Ser diligente é fazer o que precisa ser feito, é não perder tempo, não acomodar-se ao “mais fácil”, não buscar desculpas, não adiar. A diligência pressupõe uma atenção esmerada e cuidadosa para apreciar o valor dos deveres a cumprir e para os escolher conscientemente, como fruto de uma reflexão atenta e ponderada.

Fruto da reflexão

Uma pessoa diligente é uma pessoa de reflexão. Só quem pensa serenamente nos seus deveres, na maneira de conjugá-los, nas prioridades que entre eles deve estabelecer, nos passos necessários para os executar é que possui o controlo da ação e do tempo. Viver com diligência é saber aproveitar cada dia e não ser uma marioneta puxada aos solavancos pelas cordas do nervosismo e da imprevidência. A diligência necessita do solo fecundo da serenidade e da meditação. É preciso que aprendamos a parar e a perguntar a nós mesmos: Porque faço isto? Como é que o estou a fazer? Estou a fazer realmente o que devo e do melhor modo? O homem moderno é pobre em interioridade: medita pouco e quer abranger muito. Então é quase inevitável que num dado momento da sua vida, talvez quando já chegou longe demais, se lhe tornem claras, como um soco na consciência, as palavras de Santo Agostinho: «Corres bem, mas fora do caminho.»

Antídoto para a preguiça

A diligência é o melhor antídoto para a preguiça. Nos dias de hoje é muita e constante a tentação da preguiça, de cair na rotina, em vez de ter a coragem de agarrar com firmeza o leme da vida e controlar energicamente o rumo da navegação. Onde a preguiça cava um abismo, a diligência ergue uma montanha. O preguiçoso é aquele indivíduo avesso a atividades que mobilizem esforço físico ou mental, de modo que lhe é conveniente direcionar a sua vida a fins que não envolvam maiores esforços. Em confronto com a preguiça, a virtude da diligência consiste no contrário: na procura com amor do bem e na constante disponibilidade para fazer o melhor em qualquer projeto/tarefa.

Antídoto para o ativismo
A diligência é, também, um bom antídoto para o ativismo. É comum vermos muitos de nós num ativismo desenfreado. Não paramos um instante. Vamos de cá para lá, assoberbados de tarefas, numa incessante corrida atrás do tempo, que sempre nos falta. As ocupações envolvem-nos como que num remoinho e impedem-nos de sermos donos de nós mesmos. O “correr” domina-nos como um cavalo sem freio, do qual perdemos as rédeas. Pelo contrário, uma pessoa diligente aproveita e usa o tempo para uma reflexão atenta e ponderada, experimentando e afirmando que só há amor (diligência) quando se sabe apreciar e escolher alguma coisa depois de uma reflexão esmerada e cuidadosa. Não é diligente quem se precipita mas quem pondera o que fazer e como fazer.

Diligência e fé

São vários os passos bíblicos que nos falam sobre a necessidade de diligência na vida pessoal. Por exemplo, Abraão e Josué foram chamados a serem uma bênção para eles e para os outros. Aquilo que eles precisariam de fazer, aquilo que estava em poder de suas mãos, Deus não iria fazer por eles. Mas o imprevisível estaria nas mãos de um Deus que jamais é poupado em surpresas. O mesmo se passou com Noé. É óbvio que a fé tem de estar implícita no ato de acreditar, mas Noé não podia facilitar apesar de saber que Deus iria cumprir. Ele precisou de se antecipar o suficiente porque um barco daqueles não poderia ser construído em dois dias de trabalho árduo. Ele precisou de medir a distância no tempo entre o que precisava fazer e o que Deus prometeu. Imaginemos que Noé tinha acreditado em Deus mas não tinha sido diligente em obedecer-Lhe. Imaginemos que ele acreditava que no último minuto Deus lhe enviaria um barco ou pararia a chuva. Que teria acontecido? Muitas vezes queremos responsabilizar a fé pelo que já devia ter acontecido e não aconteceu, ou, então, forçar a fé a fazer o que compete à diligência. É importante crer, mas a fé só resultará se for acompanhada dos atos de diligência. Que Deus nos ajude a desenvolvê-la e a pô-la em prática na nossa vida.

Fonte:Revista Audácia Junho 2014
Texto: Abel Dias, professor

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Sejamos filhos obedientes...

A humanidade foi mergulhada no pecado e no sofrimento, na dor e na morte, por causa da desobediência de Adão e Eva; e foi salva porque Jesus cumpriu perfeitamente a vontade do Pai, obedecendo-o perfeitamente. Ele, como “novo Adão”, fez o caminho inverso de Adão. Ele disse aos Apóstolos: “Meu alimento é fazer a vontade de meu Pai que está nos céus” (Jo 4,34).

Para Jesus não havia outra razão para viver neste mundo a não ser “cumprir perfeitamente a vontade do Pai”, em perfeita obediência. Disse São Paulo: “Assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos” (Rm 5,19). A carta aos hebreus diz: “Embora fosse Filho de Deus, aprendeu a obediência por meio dos sofrimentos que teve” (Hb 5,8).

Jesus foi ao ponto mais profundo que um homem possa sofrer e se aniquilar para destruir o nó da desobediência de Adão: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fil 2,6-8).

Em muitas ocasiões Jesus deixou claro aos discípulos a necessidade de cumprir a vontade de Deus, e isso deve ser para nós uma orientação determinante. O seu alimento era fazer a vontade de Deus (cf. Jo 4,4); isso Lhe dava força, ânimo, coragem para enfrentar tudo que Ele sabia que ia acontecer com Ele até o Calvário. Já desde menino, no Templo, Ele mostra que o que lhe importa é “estar na Casa do Pai”, fazer a sua vontade, realizar o seu plano de salvar os homens. “O mundo, porém, deve saber que amo o Pai e procedo como o Pai me ordenou”.( Jo 14,31)

E, quando ensina aos Apóstolos a Oração perfeita, manda pedir que a vontade do Pai seja cumprida perfeitamente: No Sermão da Montanha, onde Ele colocou a “Constituição do Reino de Deus” (Mt 5,6 e 7), deixou claro que se salvam aqueles que fazem a vontade de Deus:

“Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres? E, no entanto, eu lhes direi: Nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus!” (Mt 7,21)

E na cruz Jesus levou à plenitude o cumprimento da vontade do Pai, obediência perfeita à Sua vontade; e assim, salvou o mundo.

Aos romanos, o Apóstolo explicava que todo cristão é convidado a responder à ordem-programa do Pai pela “obediência da fé” (Rm 1,5). A determinação do Pai foi clara: “Este é o meu Filho bem-amado, escutai-O” (Lc 9,35; Mc 9,6; 2 Pd 1,17). O acatamento a tudo que Jesus falou abre a existência de seu discípulo para a liberdade verdadeira e dá acesso à vida filial. Trata-se da aceitação das doutrinas da crença cristã que são detalhadas pelo Magistério da Igreja, bem como a adesão aDeus pela fé. Interessante é que, quando lá no Tabor os apóstolos ouviram a voz do Pai, eles “caíram de bruços e tiveram grande medo” (Mt 17, 6). Isso é fato, em nossa miséria, também nos apresentamos “medrosos” diante de Deus e da verdade. Outras tantas vezes não conseguimos compreender ou aceitar a vontade de Deus para as nossas vidas. E justamente, neste ponto, o Magistério da Igreja, nos auxilia a não “errarmos o caminho”, sobretudo ao que se trata de nossa fé. Jesus quis que fosse assim. Não me esqueço desse forte ensinamento: “É preferível errar com a Igreja, do que errar sozinho”. Mas para estar em comunhão com Cristo e a Igreja, precisamos ser obedientes. Foi o que Ele nos ensinou.

Muitos ainda dizem ser obedientes a Deus e não veem a necessidade de obedecer a Igreja. Ora, isso não pode ser assim! É preciso entender que quem não concorda com o que a Igreja ensina, não conhece bem o que Jesus ensinou, fez e mandou que fizéssemos. Ele fundou a Igreja sobre São Pedro e os Apóstolos para ser sua “porta voz” na terra e extensão de Sua Presença entre nós, já que ela é o “Corpo de Cristo” . Jesus disse aos Apóstolos: “Quem vos ouve, a Mim ouve; quem vos rejeita, a Mim rejeita, e quem Me rejeita, rejeita Aquele que me enviou” (Lc 10,16). Quer dizer, quem não ouve a Igreja, não Me ouve! Quem não obedece a Igreja, não obedece Jesus.

Jesus ainda disse a eles: “Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino”. (Lc 12, 32). E foi à Igreja que Jesus mandou: “Ide pelo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). Como, então, não concordar com a palavra da Igreja? E mais: “A quem vocês perdoarem os pecados, os pecados estarão perdoados…” (Jo 20,22). O Pai mandou o Filho para salvar o mundo; e o Filho enviou a Igreja. Ela é o “Sacramento universal da Salvação” (LG, 4), a Arca de Noé que salva do dilúvio do pecado. Na Santa Ceia, na despedida dos Apóstolos, Jesus fez várias promessas à Igreja, ali formada por seus discípulos. Entre muitas coisas que São João narrou, em cinco capítulos do seu Evangelho (13 a 17), Jesus prometeu à Igreja:

“Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós”. “Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14,15.25). Ora, como a Igreja poderia ensinar algo errado se o Espírito Santo permanece sempre com ela e lhe “ensina todas as coisas”?

Além disso, o próprio Jesus está na Igreja; pois Ele prometeu, antes de subir ao céu: “Eis que Eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20). Foi a última palavra Dele aos discípulos. Ora, como a Igreja poderia errar se Jesus está com ela todo tempo? É impossível! É por isso que São Paulo disse a São Timóteo: “A Igreja é a coluna e o fundamento da verdade” (1Tm 3,15). Então, a Igreja detém a verdade que Jesus disse que nos liberta.

É por causa de tudo isso que o nosso Credo tem 2000 anos, e nunca mudou e nem vai mudar; porque é a expressão da “verdade que salva” (cf. Cat. n.851). A mesma coisa os Sacramentos, os Mandamentos, a Liturgia. A Igreja já teve 266 Papas e nunca um deles cancelou um ensinamento doutrinário que um antecessor tenha ensinado. Já realizou 21 Concílios universais, e nunca um deles cancelou um ensinamento de um anterior. A verdade não muda, e está na Igreja. O Espírito Santo não se contradiz.

Logo, como não concordar com o que a Igreja ensina? Isso seria por causa da ignorância de tudo o que foi relatado acima; ou, então, seria um ato de orgulho espiritual da pessoa, que acha que sabe mais do que a Igreja, assistida por Jesus Cristo e pelo Espírito Santo. Longe de nós isso.

O livro do Deuteronômio ensina que é possível viver e obedecer o que Deus manda, certamente contando com a Sua graça: “O mandamento que hoje te dou não está acima de tuas forças, nem fora de teu alcance. Ele não está nos céus, para que digas: quem subirá ao céu para no-lo buscar e no-lo fazer ouvir para que o observemos? Não está tampouco do outro lado do mar, para que digas: quem atravessará o mar para no-lo buscar e no-lo fazer ouvir para que o observemos? Mas essa palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração: e tu a podes cumprir.Olha que hoje ponho diante de ti a vida com o bem, e a morte com o mal.” (Dt 30,11-16)

Podemos até não conseguir viver o que a Igreja ensina e manda viver – isso é compreensível por causa de nossa fraqueza – mas, jamais poderemos dizer que a Igreja está errada ou que eu não concordo com o que ela ensina. Ela não ensina o que quer, mas o que o Seu Senhor lhe confiou.

Peçamos ao Espírito Santo que nos assista em nossas necessidades e faça de nosso coração ainda mais manso, humilde e obediente para agradar a Deus.

Prof. Felipe Aquino

Texto: http://www.santateresinhago.com.br
Imagem: Internet