quarta-feira, 2 de maio de 2018

Como Deus fala a Maria

Leitura Bíblica
"Então, os fariseus e os saduceus aproximaram-se dele; e, para o tentarem, pediram-lhe que lhes fizesse ver um sinal do Céu. Ele respondeu-lhes: «Ao entardecer, vós dizeis: ‘Vamos ter bom tempo, pois o céu está avermelhado’; e, de manhã cedo, dizeis: ‘Hoje temos tempestade, pois o céu está de um vermelho sombrio.’ Como se vê, sabeis interpretar o aspecto do céu; mas, quanto aos sinais dos tempos, não sois capazes de os interpretar! Esta geração má e adúltera exige um sinal! Mas sinal algum lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas.» E, deixando-os lá, afastou-se." (Mt 16, 1-4)

Comentário
Deus continua a falar ao homem de hoje. Este deve esforçar-se por ouvir a Sua voz. Fala-nos de duas maneiras principais: através da Bíblia e através da vida.
Na Bíblia, encontramos a experiência de um Povo e o modo como Deus se lhe foi manifestando progressivamente, através dos séculos, conduzindo-o, com admirável paciência, pelos caminhos da salvação, até chegar a Cristo, luz das nações (cf Jo 8, 12; Lc 2, 32; DV 14-16).
Na vida, sobretudo nos anelos do homem do nosso tempo, encontramos a manifestação da vontade divina para o momento actual. 
Tempos de saber interpretar os «sinais dos tempos» (Mt 16, 1-4).

Nossa Senhora não encontrou a Palavra de Deus exclusivamente na Bíblia. Descobriu-a também na vida. É o que nos diz S. Lucas: «Maria conservava todas estas coisas, meditando-as no seu coração» (Lc 2, 19). Os acontecimentos de Nazaré e de Belém trazia-os a Senhora bem gravados na mente e reflectia assiduamente neles.
Para Maria, a Bíblia era o Antigo Testamento, pois o Novo ainda não estava escrito. A Senhora estava a vivê-lo. Era até um dos seus mais destacados personagens. Pois Maria ia refletindo no que lhe acontecia, procurando no Antigo Testamento - a Bíblia do seu tempo - o significado da sua vida.

Também nós temos de proceder como a Senhora. Não basta ler a Escritura Sagrada. É preciso ler também a vida e comparar os acontecimentos com a Palavra de Deus.
O Senhor, com efeito, fala-nos por dois canais: a Bíblia e a vida. Temos de estar atentos a ambos. Não basta saber que, no tempo de Cristo e da Senhora, foi "assim ou assado". 
É necessário descobrir como Deus quer que seja hoje. Não podemos falar ao homem do século XXI como o autor bíblico falava ao homem do seu tempo. É preciso traduzir o Evangelho para a linguagem e as necessidades actuais. Para isso, teremos numa mão a Bíblia, que nos diz o estilo da actuação de Deus, e na outra o jornal, que nos mostra a vida dos homens e os seus anseios universais, expressão da vontade actual do Pai Celeste. Por isso, mais que nunca, a Igreja, como Maria outrora, deve estar atenta à vida dos homens. Este seu programa traçou-o ela na Constituição conciliar «Gaudium et Spes».

Texto estraído do livro: Mês de Maria pela Bíblia, da Difusora Bíblica
Imagem: Internet

terça-feira, 1 de maio de 2018

Deus fala a Maria

Leitura Bíblica:
"Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.» Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada é impossível a Deus.» Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela."
(Lc 1, 26-38)

Comentário:
Sentem os homens que Deus lhe fala?
Falou-te Deus alguma vez? Tens experiência de ter ouvido a Sua voz? E os homens dos nossos dias sentem que Deus lhes dirige a Palavra?
A verdade é que muitos têm a impressão de que Deus emudeceu. Se olharmos para o mapa-mundi, deparamos com o fenómeno novo de encontrarmos zonas enormes de países que se dizem ateus. Por cada três pessoas, uma ou é comunista ou vive sob o regime comunista. E, entre os cristãos, é cada vez maior o número dos que vão deixando de acreditar. Houve até quem falasse da «morte de Deus».
Mas Deus falou a Maria. Falou aos Patriarcas e aos Profetas. Nestes tempos, que são os últimos, falou-nos pelo Seu Filho. O Padre Pio, a Alexandrina, a Lúcia, justificam que Deus lhes falou. Continua ainda a falar a muitos cristãos.

Será que foi Deus que emudeceu ou é o homem que se tornou mudo à Sua voz? Para um surdo voluntário sempre tem de haver um surdo involuntário, por mais que este grite. A verdade é que hoje é mais difícil ouvir a voz de Deus do que outrora. Noutros tempos era fácil ouvir a voz do Senhor: no ribombar do trovão dizia-se até que era o «Pai do Céu a ralhar»; na chuva e no vento, no sol e na sombra, pois pensava-se que Deus regulava estes fenómenos em cada caso. Hoje não é fácil ouvir a voz de Deus no roncar dos motores, no barulho ensurdecedor da fábrica ou, menos ainda, no estampido das bombas ou no troar dos canhões.

A natureza é sagrada. A técnica profana. Um camponês, com toda a naturalidade, põe-se a rezar para o Senhor fazer frutificar a semente lançada no seio da terra. Mas é impossível, quando avaria o motor, pôr-se o técnico a rezar para que Deus lho conserte.

No entanto, o homem da técnica precisa de Deus. A juventude dos países super-civilizados sente a necessidade de outros valores que a máquina lhe não pode dar e, à sua procura, foge para o misterioso oriente. A técnica tem o perigo de reduzir o homem à categoria de uma peça.
Se temos sido surdos à voz do Senhor, não endureçamos hoje os nossos corações. Construamos na nossa vida espaços de silêncio para ouvir a Deus.

Texto extraído do livro: Mês de Maria pela Bíblia, da Difusora Bíblica
Imagem: Internet

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A brasa... isolada

Um membro de um determinado grupo no qual participava regularmente, sem nenhum aviso ou causa aparente afastou-se e desapareceu.
Após algumas semanas, o responsável do grupo preocupado com sua ausência decidiu visitá-lo em sua casa.  Era uma noite muito fria. O responsável encontrou o colega em sua casa sozinho, sentado diante de uma quentinha e brilhante lareira.
Já supondo a razão para a visita, o homem deu-lhe boas-vindas, conduziu-lhe a uma grande cadeira perto da lareira e ficou quieto esperando a bronca. O responsável se fez confortável, mas não disse nada. No silêncio sério, contemplou a dança das chamas em torno da lenha ardente.
Após alguns minutos, o responsável examinou as brasas, cuidadosamente apanhou uma brasa ardente e deixou-a de lado. Então voltou a sentar-se e permaneceu silencioso e imóvel. O anfitrião prestou atenção em tudo, fascinado e quieto.
Então diminuiu a chama da solitária brasa, houve um brilho momentâneo e seu fogo apagou-se de vez.  Logo estava frio e morto.
Nenhuma palavra tinha sido dita desde o cumprimento inicial. O responsável antes de se preparar para sair, recolheu a brasa fria e inoperante e colocou-a de volta no meio do fogo. Imediatamente começou a incandescer uma vez mais com a luz e o calor dos carvões ardentes em torno dela. Quando o responsável alcançou a porta para partir, seu anfitrião disse:
“Obrigado tanto por sua visita quanto pelo sermão. Eu estarei voltando ao grupo amanhã mesmo”.

Aos membros de um grupo:
Vale sempre lembrar-lhes que eles fazem parte da “chama” do grupo e que longe dela perdem todo seu brilho e nos tornamos mais vulneráveis aos ataques do inimigo. 

Aos responsáveis:
Vale a pena sempre lembrar- lhes que eles também são responsáveis de manter acesa a chama de cada um e de promover a união entre todos eles, para que o fogo seja sempre realmente forte, eficaz e duradouro.

Exemplo de perseverança, a força do grupo e a vida em comunidade...

"Sem abandonarmos a nossa assembleia - como é costume de alguns - mas animando-nos, tanto mais quanto mais próximo vedes o Dia." (Hb 10, 25)

fonte e imagem: internet

O peso das comodidades

«A maior parte dos luxos e muitas das chamadas comodidades não só não são indispensáveis, como são, pelo contrário, verdadeiros obstáculos ao progresso da humanidade.»

Conta-se que Sócrates ia para o meio das mercadorias e produtos oferecidos pelo mercado de Atenas para exclamar, satisfeito: «De quantas coisas não tenho absolutamente necessidade».

A sociedade moderna levou-nos, com o seu consumismo, a um nível altíssimo de necessidades não necessárias. Muitas “comodidades” são absolutamente exorbitantes, apenas úteis para enriquecer quem as produz e se destaca na habilidade de convencer-nos que sem elas não podemos viver decorosamente.

É este também o pensamento expresso pelo escritor americano Henry David Thoreau (1817-1862), na sua obra “Walden ou a vida nos bosques” [editado em Portugal pela Antígona], espécie de diário da sua vida durante dois anos sozinho numa cabana junto ao lago de Walden, no Massachusetts.

É verdade que pode também haver uma retórica da vida na natureza, primitiva e solitária, e talvez o próprio Thoreau seja algo indulgente em relação a ela.

Todavia, a lógica frenética dos consumos, a publicidade comercial marteladora, a preguiça e o prazer sem esforço encheram-nos de produtos que impelem para fora de nós mesmos a nossa, o compromisso, a sobriedade, a generosidade.

O estilo clássico da Quaresma era o da separação, da renúncia, da abstinência, do jejum. Agora, no máximo, conhece-se a dieta mas ignora-se o domínio de si, o essencial, a purificação do espírito da posse e da acumulação.

Um autêntico progresso moral ocorre quando nos libertamos das escórias, dos adornos, das comodidades inúteis. O apego às coisas torna-nos não só pesados fisicamente, mas pesados na mente e no coração, extinguindo a leveza e a liberdade da alma.

P. (Card.) Gianfranco Ravasi 
fonte: http://www.snpcultura.org/o_peso_das_comodidades.html
Imagem: Internet

O sapato e a formiga

«Uma formiga debaixo do sapato de um homem não tem a mais pálida ideia de como é um rosto humano. E nós, diante do rosto de um homem, ignoramos da mesma forma como está o seu coração.

Por puro acaso ou por um subtil sabor perverso, por vezes o nosso sapato esmaga a formiga que atravessa a estrada. Entre ela e a enormidade de nossa figura, melhor, entre a sua pequena cabeça e o nosso rosto há uma distância quase abismal, uma impossibilidade de comunicação.»

Parte desta imagem Milena Jesenská (1896-1944), a mulher de Praga que ficou célebre pelo seu amor com Franz Kafka, a que permanecerá ligada entre 1920 e 1922, pontuando o escritor esse período com as conhecidas "Cartas a Milena".

A imagem é tomada como comparação para indicar o imenso segredo do coração humano: de uma pessoa vê-se o rosto, dele consegue-se intuir algo quando enrubesce, quando te olha, sorri ou chora, mas o íntimo mais profundo permanece oculto.

Somente com a comunicação livre e sincera de si é que esse abismo é preenchido, o que raramente acontece, às vezes nem sequer no casamento.

É verdade que há uma intimidade que pode permanecer sempre e apenas "pessoal", e o outro deve respeitá-la. O poeta libanês K. Gibran sugeria aos noivos: «Cantai, dançai juntos e sede alegres, mas deixai que cada um esteja só: mesmo as cordas de um alaúde estão sós embora frimam a mesma música. Deem os vossos corações mas não para os possuir, porque só a mão de Deus pode contê-los».

Há, portanto, uma solidão necessária que deve ser protegida, mas também é importante que se percorra o caminho de comunhão, no qual se possa ser «um só coração e uma só alma» (Atos 4, 32).

P. (Card.) Gianfranco Ravasi 
fonte: http://www.snpcultura.org/o_sapato_e_a_formiga.html
imagem: internet

sexta-feira, 30 de março de 2018

Sexta-feira Santa - Mistério de Amor

Amar até o fim significa que, no caminho da sua entrega por nós na cruz, Jesus seguiu todas as etapas, sem deixar uma só, e chegou até o final. As penúltimas palavras que pronunciou na cruz foram: “Tudo está consumado” (Jo 19, 30), antes de clamar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23, 46).

Mas amar até o fim também significa que Cristo, na cruz, nos amou sem limite algum, sem recuo algum, sem se poupar em nada, até o extremo. Nada limitou o amor do Senhor por nós. Não se deteve em barreiras, não O arredou nenhuma dor, nenhum sacrifício, nenhum horror. Acima do Seu bem-estar, da Sua honra, da Sua vida, colocou a salvação dos que amava, de cada um de nós.

Já pensamos no que é um amor ilimitado? Um amor que não depende de nada, nem exige nada, para se dar por inteiro?

O amor de Cristo começa sem que nós O tenhamos amado, não é retribuição, é puro dom; e chega até o extremo ainda que nós não o correspondamos, melhor dizendo, no meio de uma brutal falta de correspondência. Nisso consiste o amor – esclarece São João –: “Não em termos nós amado a Deus, mas em que Ele nos amou primeiro e enviou o seu Filho para expiar os nossos pecados” (1 Jo 4, 10).

Explicação da solenidade de Sexta-Feira Santa com padre Paulo Ricardo 

A meditação da Paixão, neste sentido, é transparente. Nenhum sofrimento físico aparta Jesus da cruz. Basta que contemplemos – como numa sequência rápida de planos cinematográficos – Cristo preso, amarrado, arrastado indignamente, esbofeteado, açoitado até a Sua carne se converter numa pura chaga, coroado de espinhos, esfolado e esmagado sob o peso da cruz e de nossos pecados, cravado com pregos ao madeiro, torturado pela dor, pela sede, pelo esgotamento… Nada O detém na Sua entrega amorosa.

Podemos projetar também – em flashes consecutivos – a sequência dos sofrimentos morais do Senhor, e perceber que tampouco conseguiram afastá-Lo de chegar até o fim. É caluniado, ridicularizado, julgado iniquamente, condenado injustamente; alvo de dolorosa ingratidão, de hedionda traição; é ferido pela infidelidade, pela falta de correspondência dos que amava e escolhera como Apóstolos; é atingido pelas troças mais grosseiras, pelos insultos mais ferinos, por escarros e tapas no rosto…

Nada O faz recuar, nem sequer a última humilhação, pois não O deixaram morrer em paz, e desrespeitaram com zombarias e insultos até os últimos instantes da Sua agonia. Os que passavam perto da cruz sacudiam a cabeça e diziam: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz!”

Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam de Jesus nessa hora: “Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz e creremos nele; confiou em Deus, que Deus o livre agora, se o ama…” (Mt 27, 39-43). Esta doação sem limites de Cristo é o Amor que nos salva, o caminho que Ele quis escolher para nos livrar do mal, afogando-o em si – no Seu Amor – como num abismo.

Ao mesmo tempo, é um contínuo apelo ao nosso amor. “Quem não amará o Seu Coração tão ferido? – perguntava São Boaventura. Quem não retribuirá o amor com amor? Quem não abraçará um Coração tão puro? Nós, que somos de carne, pagaremos amor com amor, abraçaremos o nosso Ferido, a quem os ímpios atravessaram as mãos e os pés, o lado e o Coração.

Peçamos que se digne prender o nosso coração com o vínculo do Seu amor e feri-lo com uma lança, pois é ainda duro e impenitente.

Imagem: Internet
https://formacao.cancaonova.com/liturgia/tempo-liturgico/quaresma/sexta-feira-da-paixao-misterio-de-amor/

quinta-feira, 29 de março de 2018

Quinta-feira Santa - reflexão

A Quinta-feira santa inicia o ‘Tríduo pascal’, o núcleo do ano litúrgico. O seu tempo mais importante. É recordação e é celebração daquelas horas finais da vida do Mestre junto aos seus discípulos. Cada comunidade se reúne à mesa da Eucaristia. Entre nós há a amizade, a ternura, o amor dos apóstolos. Comungar a Páscoa é receber a energia de vida e de libertação que nos vem das palavras e gestos de Jesus: na última ceia e na cruz.

Em cada Diocese o bispo celebra com seus sacerdotes a missa da Crisma. Nela é dada a bênção dos santos óleos. Três bênçãos diferentes separam os óleos que servirão até a Páscoa do ano seguinte: para ungir os doentes; nos batizados, batismo e na ordenação sacerdotal. O povo católico participa da Missa da Ceia do Senhor. Cerimônia comovente repassando as lembranças da despedida de Jesus conservadas pela Tradição. Tudo centralizado na Eucaristia por ele instituída nesse dia. Nessa mais preciosa herança a Igreja tem a fonte da sua presença viva e perpétua na consagração do pão e do vinho e a vivência perene do mandamento novo do Mestre: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei, este é o meu novo mandamento!”.

Enfim, momento imperdível do nosso crescimento espiritual, do convívio fraterno uns com os outros e da esperança de um mundo melhor para todos, a missa do “lava-pés” reproduz a lição de fraternidade deixada por Jesus.  Até as crianças compreendem a exigência do novo mandamento concretizada em ritos e gestos. 

Leitura Bíblica:
"Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo. O diabo já tinha metido no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, a decisão de o entregar. Enquanto celebravam a ceia, Jesus, sabendo perfeitamente que o Pai tudo lhe pusera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura. Chegou, pois, a Simão Pedro. Este disse-lhe: «Senhor, Tu é que me lavas os pés?» Jesus respondeu-lhe: «O que Eu estou a fazer tu não o entendes por agora, mas hás-de compreendê-lo depois.» Disse-lhe Pedro: «Não! Tu nunca me hás-de lavar os pés!» Replicou-lhe Jesus: «Se Eu não te lavar, nada terás a haver comigo.» Disse-lhe, então, Simão Pedro: «Ó Senhor! Não só os pés, mas também as mãos e a cabeça!» Respondeu-lhe Jesus: «Quem tomou banho não precisa de lavar senão os pés, pois está todo limpo. E vós estais limpos, mas não todos.» Ele bem sabia quem o ia entregar; por isso é que lhe disse: ‘Nem todos estais limpos’. Depois de lhes ter lavado os pés e de ter posto o manto, voltou a sentar-se à mesa e disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também." (Jo 13, 1-15)

A rigor o evangelho aqui não quer documentar fatos. Oferece um anúncio de fé sobre o sentido da pessoa e da obra de Jesus na terra. Nele e por ele Deus fez uma nova criação e uma nova aliança com os homens. Por isso a Última Ceia não repetia a ceia pascal judaica, mas a ultrapassava. A Páscoa de Jesus não foi a mesma páscoa do A.T. Foi a dele. Aquele jantar onde ele se despedia marcava também o início da sua “hora” pré-anunciada repetidas vezes. A hora decisiva da sua vida, o coroamento de sua missão. Ela revela a plena consciência humana de Jesus sobre sua vocação. “Sabia que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos, que de Deus tinha saído e para Deus voltava” (v3).  Jesus perscrutando o que Deus queria dele, assumia com plena consciência as decisões finais de sua vida pessoal em todos os seus riscos e consequências. No texto a “hora de Jesus” significa sua volta para o Pai; é a saída do mundo. Saída é alusão ao êxodo ou a saída do povo hebreu libertado do Egito lá no longínquo passado. Lembra-se a páscoa que libertara o povo da escravidão pela imolação do cordeiro pascal. Mas, Jesus é o novo e verdadeiro cordeiro pascal. Deixou-se sacrificar movido por um amor solidário em extremo para nos libertar da escravidão gerada pelo pecado. Individual ou social, o pecado é a fonte da corrupção que sustenta a cultura da morte deixando rastros de injustiças e violências em toda convivência humana.

Essa entrega de amor do Senhor é revivida em todas as culturas do mundo nos gestos simbólicos do lava pés. Jesus tirou o manto, saiu da mesa e ajoelhou-se aos pés dos discípulos. O gesto de “tirar o manto” significa no texto: despojou-se de si para servir a todos. Passou de Mestre a servidor humilde. O lavar os pés era um serviço doméstico prestado ao dono da casa ao voltar da rua empoeirada. Só um escravo não judeu o prestava, pois era considerado muito humilhante e desprezível. A reação de Pedro sinaliza isso: “Tu nunca me lavarás os pés”. Ele só aceitou ver Jesus humilhado a seus pés ao ser colocado contra a parede: “Se não me deixas lavar os teus pés, não és dos meus amigos”.  Após a ressurreição do Senhor, ele e os outros discípulos entenderam aquela lição de amor fraterno solidário.

A postura de Jesus ajoelhado perante seus discípulos nos ensina que na comunidade cristã não há dominadores e dominados. Apenas irmãos e servidores uns dos outros.  O “lava-pés” não pode ser mera cerimônia. É teste e desafio aos cristãos de todos os tempos. A quem recusamos acolher? A quem não gostamos de servir? Talvez os excluídos por todo tipo de marginalização: desempregados, mendigos, idosos, nossos vizinhos mais humildes? Nesta quinta-feira santa coloquemos nossos pés nos caminhos de Jesus, renovando a convicção: segui-lo é servir por amor.

Imagem: Internet
Fonte: http://www.a12.com/academia/homilias/reflexao-para-a-quinta-feira-santa